18 março 2012

Alternativas para o reaproveitamento do lodo de esgoto , é o tema deste 2º capitulo da Serie ECO SOLUÇÕES do blog .

Lodo de esgoto é um resíduo rico em matéria orgânica gerado durante o tratamento das águas residuárias nas Estações de Tratamento de Esgotos (ETEs). Biossólido é o nome dado ao lodo de esgoto, tratado ou processado, com características que permitam sua reciclagem de maneira racional e ambientalmente segura.
No Brasil, a disposição final do lodo geralmente é o aterro sanitário. Além do alto custo, que pode chegar a 70 % do custo operacional de uma ETE, a disposição de um resíduo com elevada carga orgânica no aterro, agrava ainda mais o problema com o manejo do lixo urbano. Em países da Europa e América do Norte, o lodo geralmente é incinerado, depositado em aterros sanitários ou utilizado em áreas agrícolas, dependendo das características do resíduo.
Entretanto, o aproveitamento do biossólido na agricultura como adubo só é permitido, se todos os requisitos qualitativos e monitoramento das áreas aplicadas estabelecidos pelo CONAMA, estiverem rigorosamente atendidos.
Venho acompanhando a anos este tema, verifica-se existirem muitas iniciativas de reaproveitamento agricola do lodo, e destaco aqui a experiência aplicada na silvicultura.



20 fevereiro 2012

ECO soluções para o Lodo Gerado no Tratamento de Efluentes (1)

À tempos venho pesquisando formas alternativas de aproveitamento de lodos gerados pelos processos de tratamento de efluentes industriais, em estações de tratamento de águas e esgoto, e a partir deste blog, estarei expondo minhas experiências nestes focos, começando neste primeiro tempo , pelo sistema de “bags desaguadores” .
Trabalhei alguns meses no desenvolvimento de um sistema de desaguamento de lodos, realizado através de bolsas , fabricadas em geotecido, eu e meu colega "véi" de faculdade, ( assim falando, parece que foi ontem, mas já se foram mais de trinta anos....) ,  Paulo Roberto Cielo.
Este sistema, batizado de AmbientalBag™ , foi modelado baseando-se nas necessidades verificadas junto a clientes, que precisavam desaguar lodos gerados em seus processos industriais e no tratamento de efluentes, mas que necessariamente devessem ser de baixo custo, eficientes e que não envolvessem maiores investimentos com infra-estruturas e mão de obra altamente especializada , além das autarquias municipais, que devolvem para a natureza, os residuos finais resultantes do tratamento da água coletada dos mesmos mananciais.
Vale a informação que qualquer processo industrial de transformação de matéria, pode gerar resíduos , e quando estão envolvido líquidos no processo, estes, antes de serem descartados, precisam ser tratados , começando pela filtração, passando pelo tratamento químico, até a desidratação, conforme conveniência e atendendo a legislação ambiental pertinente. O objetivo portanto,  é atender a legislação e conseguir maximamente reaproveitar o que se pode dos efluentes.
Neste ponto, derivamos o assunto, para o estudo da questão de lodos de Estações de Tratamento de Aguas , as ETAS.
Por que o reaproveitamento de lodo de ETA ?
Antes, uma breve introdução ao sistema de tratamento de águas municipais :  basicamente,  a água de abastecimento publico é retirada de um corpo d’agua, (rios, represas, lagos, ), através de bombas é levada até um sistema de armazenamento e nele, por processos físico-quimicos, purifica-se a água, e com a inclusão de produtos sanitizantes, potabiliza-se para então permitir sua distribuição à população.
No processo de tratamento, basicamente , realiza-se uma filtração através de gradientes de areia, na qual os detritos suspensos são retirados . Com o passar do tempo e das filtragens, estes filtros colmatam, isto é, não filtram mais, e precisam ser limpos. Quando então estes filtros são retro-lavados, estas águas com aparência de lama são devolvidas para o corpo d’água que foi inicialmente coletada.  Este é o cenário de quase 100% das ETAs no Brasil.
No tratamento destas águas de retro lavagens dos filtros,  entra em cena o sistema de bolsas deságuadoras.  Estes sistemas,  permitem realizar a percolação seletiva no lodo, isto é, o tecido da estrutura da bolsa é permeável para a água mas não para o particulado, que fica retido no interior da bolsa.
As águas percoladas, agora livres de material particulado, podem ser direcionadas ou para reaproveitamento para outras atividades, até industriais, chamadas Agua de Reuso,  inclusive até geradora de renda  com sua comercialização. Aliás, este é um modelo já adotado pela SABESP , com grande procura pelas industrias , pois seu custo é menor se comparado ao da água potável distribuída pela mesma.   
O aproveitamento do lodo, que ficou retido no interior do sistema desaguador, poderá então seguir várias rotas de reutilização , com cunho  econômico e social, além do ambiental, como produção de tijolo ecológico (engobe) , placas de piso, utilizados para a edificação de moradia popular, inclusive integrando a comunidade , capacitando-a para sua produção e utilização.
O processo é simples, ambientalmente, socialmente correto, econômico e  pode ser aplicado sem contra indicação em qualquer ETA.
Lama resultante da retro-lavagem de ETA

Testes definem o tipo de trama do tecido da bolsa mais conveniente para o desaguamento e retenção do particulado

Enchimento da bolsa geotextil com lodo bombeado do Decantador da ETA


Atingida a capacidade volumetrica de acumulo dos solidos na bolsa, o lodo desaguado pode ser reaproveitado para a fabricação de tijolos (engobe) , e a agua percolada, reaproveitada como Água de Reuso.


Ganha a natureza, ganha o homem.

Renato Ariboni -  Biólogo       ariboni.renato@gmail.com 

19 fevereiro 2012

Fungo amazônico degrada plástico em condições semelhantes às de aterro sanitário

Pesquisadores americanos descobriram um fungo na Amazônia equatoriana capaz de degradar poliuretano, um tipo de polímero muito usado para a confecção de espumas, adesivos e tintas. O trabalho, publicado na Applied and Environmental Microbiology, pode levar a estratégias inovadoras para reduzir o impacto ambiental dos plásticos.

Ambientalistas argumentam que os plásticos demoram muito para se decompor na natureza. O polietileno, por exemplo, leva cerca de 50 anos. O PET, usado na produção de garrafas plásticas, permanece até 200 anos no ambiente. Cientistas explicam que fungos e bactérias ainda não desenvolveram o arsenal de enzimas necessário para degradar as longas cadeias sintéticas de carbono, hidrogênio e outros elementos que constituem os plásticos.

Daí a necessidade de pesquisas e ações para remediar o problema. Um acordo, ainda em fase de implementação, do governo paulista e da Associação Paulista de Supermercados (Apas), pretende banir a distribuição de sacolas plásticas nos supermercados do Estado, um gesto para evitar que 2,4 milhões de unidades - cada uma leva, no mínimo, 40 anos para se decompor - sejam lançadas no ambiente todos os meses.

A descoberta de organismos que já são aptos para degradar o plástico nos aterros ajudaria a encurtar os tempos de decomposição e a diminuir consideravelmente o dano ambiental.

Duas cepas de Pestalotiopsis microspora, descobertas pelos americanos - em sua maioria, estudantes de graduação da Universidade Yale -, mostraram um enorme potencial na degradação de poliuretano. O estudante Jonathan Russell identificou a enzima secretada pelo fungo responsável pelo enfraquecimento das ligações químicas do polímero.

Oxigênio. A pesquisa trouxe consigo uma descoberta inusitada: a enzima funciona tanto na presença como na ausência de oxigênio, algo inesperado para os cientistas. Desta forma, o fungo poderia funcionar também nos aterros sanitários, onde uma grossa camada de dejetos e terra costuma cobrir os plásticos descartados, diminuindo a oxigenação e, desta forma, dificultando sua decomposição.

A pesquisadora Sandra Mara Franchetti, da Unesp de Rio Claro, também realiza testes com fungos de diferentes espécies para comparar seu potencial para biodegradar plástico.

Ela realiza misturas de diferentes tipos de plásticos - as chamadas blendas poliméricas -, especialmente de plásticos sintéticos com plásticos biodegradáveis. “Depois, fazemos testes para verificar as propriedades mecânicas do material e seu potencial de biodegradação”, explica Sandra. “Nossa hipótese é que o polímero biodegradável pode servir como porta de entrada para os organismos que realizarão a decomposição.”

“Há poucos pesquisadores no País atuando nesta área pois são necessários equipamentos muito sofisticados”, aponta Lucia Durrant, da Unicamp, que também já realizou estudos na área.

Derval Rosa, da Universidade Federal do ABC, também estuda a biodegradação de polímeros e tenta descobrir como ela ocorre nos aterros sanitários e em cada um dos diferentes tipos de plástico. Mas adota uma postura realista. “Nossos aterros são precários”, afirma. “Talvez em 20 anos conseguiremos o nível de controle necessário para aplicar esse tipo de conhecimento.”


fonte O Estado de São Paulo  no link da noticia 

13 fevereiro 2012

O QUE É CONTABILIDADE AMBIENTAL?

Há uma consciência quase que universal que os recursos naturais são limitados, e não podem mais ser desperdiçados, sob pena de comprometimento do equilíbrio ecológico de nosso planeta.

A contabilidade como ciência apresenta condições, por sua forma sistemática de registro e controle, de contribuir de forma positiva no campo de proteção ambiental, com dados econômicos e financeiros resultantes das interações de entidades que se utilizam da exploração do meio ambiente. Especificamente, tal conjunto de informações é denominado de “contabilidade ambiental”.


Contabilidade ambiental, portanto, é o registro do patrimônio ambiental (bens, direitos e obrigações ambientais) de determinada entidade, e suas respectivas mutações - expressos monetariamente.

Seu objetivo é propiciar informações regulares aos usuários internos e externos acerca dos eventos ambientais que causaram modificações na situação patrimonial da respectiva entidade, quantificado em moeda.

Historicamente, a Contabilidade do Meio Ambiente passou a ter status de um novo ramo da ciência contábil em fevereiro de 1998, com a finalização do "relatório financeiro e contábil sobre passivo e custos ambientais" pelo Grupo de trabalho inter-governamental das Nações Unidas de Especialistas em padrões Internacionais de Contabilidade e relatórios (ISAR – United Nations Intergovernanmental Working Group of Experts on International Standards of Accounting and Reporting).

A contabilidade é uma enorme fonte de registro, interpretação e informação de dados empresariais e governamentais. Sua utilidade social é bem expressa pelo então presidente da França, Jacques Chirac, em seu discurso na sessão plenária de encerramento do XV Congresso Mundial de Contadores, em 1997:

"... A profissão contábil desempenha um papel fundamental na modernização e internacionalização de nossa economia. Isso porque vocês não se restringem a cuidar de contas. Vocês são conselheiros e, às vezes, confidentes das administrações de companhias, para que têm um importante papel a desempenhar, especialmente em assuntos sociais e tributários. Vocês orientam pequenas e médias empresas e sua administração, simplificando as alternativas, que ainda são demasiado complexas. Vocês desempenham, portanto, um papel no desenvolvimento das possibilidades de emprego, o que merece um especial registro de reconhecimento...".
VANTAGENS DA UTILIZAÇÃO DA CONTABILIDADE AMBIENTAL 
Em decorrência da crescente escassez de recursos naturais e da degradação da natureza, em todo o mundo acirrou-se o debate econômico, político e social sobre tais situações e as medidas necessárias à reversão deste cenário. Daí a necessidade de se conhecer o problema não somente sob seus aspectos mais amplos – mas também específicos: boa parte da degradação ambiental é decorrência dos próprios entes de produção de bens e serviços – o chamado “progresso a todo custo”. 
Como não é possível (nem desejável) reverter o progresso, pois os sistemas econômicos necessitam atender à demanda de bilhões de pessoas do planeta terra – há de se encontrar respostas às tais questões mediante um amplo e contínuo trabalho de aferição dos eventos ambientais por todos agentes (governo, entidades privadas e ONG`s) – daí a contabilidade, como ciência, tem a vantagem de oferecer meios de aferição econômica de tais políticas. 
A utilização irresponsável de meios naturais para a produção de bens e serviços, além dos danos ambientais óbvios, tende a gerar para a entidade que o provocou o repúdio da sociedade e dos consumidores. Economicamente, a gestão ambiental não precisa ser encarada como “um custo a mais”, mas uma ótima oportunidade de demonstrar a responsabilidade social e melhorar a imagem mercadológica – e por conseguinte – gerar um saudável ciclo de lucros sustentáveis a médio e longo prazo.
Para a tomada de decisões e avaliação regular de tais políticas ambientais, a contabilidade é imprescindível, pois gera informações relevantes aos administradores de qualquer entidade. 
Poderíamos sintetizar as seguintes vantagens da utilização da contabilidade ambiental: 
- identificar e alocar custos ambientais, de maneira que as decisões de investimentos estejam baseadas em custos e benefícios adequadamente medidos;
- permite aferir, economicamente, as reduções de gastos com água, energia e outros recursos, renováveis ou não;
- gera informações e demonstrativos sobre a eficácia e viabilidade econômica das ações ambientais;
- a publicação do balanço ambiental gera transparência da gestão e uma potencial melhoria de imagem da entidade produtora perante o público;
- a contínua correção das ações ambientais, em decorrência da utilização de dados físicos-contábeis, contribui para a sociedade como um todo – pois haverá redução do nível de agressão à natureza na elaboração de produtos e serviços indispensáveis.
Júlio César Zanluca é contabilista e autor de várias obras na área contábil e tributária.

11 fevereiro 2012

Com mandacaru não tem água turva

Um dos cactos brasileiros de maior porte, com ampla distribuição tanto no semi-árido como em cerrados e florestas secas, o mandacaru (Cereus jamacaru) é usado como referência de caminho por sertanejos e mateiros. E também indica a proximidade da esperada estação chuvosa, como bem lembra a voz do velho Luiz Gonzaga, no verso “mandacaru quando flora lá na serra, é sinal que a chuva chega no sertão/toda menina que enjoa da boneca é sinal de que o amor já chegou ao coração”.

Pois agora, no Paraná, mandacaru também abre um novo caminho para o tratamento de água e já dá sinais de redução da poluição ao final do processo. A pesquisa é coordenada pelo químico e doutor em Química Analítica, Ricardo Fiori Zara, da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). Junto com alunos de Iniciação Científica, há um ano ele estuda a viabilidade de substituir os produtos comerciais à base de alumínio por polímeros naturais extraídos do mandacaru na coagulação/floculaçãopara decantação de sedimentos, que é a primeira fase do tratamento de água para abastecimento.
“Em 2011, testamos várias maneiras de extrair o polímero do mandacaru e comparamos a eficiência na floculação dos diversos extratos com os químicos comerciais, como o sulfato de alumínio, usado em 95% da água tratada no Brasil”, conta Zara. A parte do cacto utilizada foi o cerne do caule, em alguns casos, triturado e convertido em solução aquosa e, em outros experimentos, seco e moído até virar pó.
“O melhor resultado que obtivemos em laboratório foi com a extração em solução salina”, observa o pesquisador, ressaltando que a substituição do sulfato de alumínio não foi total, mas é superior a 50%. Ou seja, “o uso do mandacaru na floculação reduz pela metade a quantidade do produto químico, lembrando que o alumínio é um poluente que permanece no lodo final, enquanto o mandacaru é biodegradável”.
Vale acrescentar que boa parte das estações de tratamento de água (ETAs) brasileiras não dispõe o lodo final em aterros sanitários adequados, mas devolve o resíduo aos próprios rios e reservatórios de onde a água é captada. O alumínio persiste nos sedimentosdo fundo e pode voltar à coluna d’água sempre que há algum tipo de mobilização (enchentes, por exemplo, ou dragagem).
Outra vantagem do mandacaru sobre o sulfato de alumínio desencadear a floculação de 30 a 40% mais rápido. “E os flocos são diferentes: enquanto o sulfato de alumínio transforma as partículas em suspensão em flocos pequenos e pouco densos – portanto mais leves – o mandacaru agrega os flocos, deixando-os mais pesados”, prossegue o pesquisador. “Embora a qualidade da água resultante seja mais ou menos equivalente nos dois casos, o tipo de floculação do mandacaru facilita a separação (decantação): os sedimentos vão para o fundo e a água mais limpa permanece em cima, pronta para ser transferida para o tanque seguinte”.
Ainda faltam mais testes com outras combinações de mandacaru e sulfato de alumínio para chegar a uma dosagem padrão e para verificar se não há derivados tóxicos do cacto. As perspectivas são boas, pois, conforme a literatura científica consultada, não há registro de toxicidade pra o caule do mandacaru. Popularmente, inclusive, o cacto é usado como alimento para o gado em secas mais prolongadas e o caule também é consumido como medicamento popular, para males dos rins. De qualquer forma, os testes serão realizados.
“Neste ano de 2012, a intenção é continuar com a pesquisa de modos de aplicação e em maior escala, nas condições reais de estações de tratamento”, explica Ricardo Zara. “Além de realizar testes complementares como os de toxicidade do polímero de mandacaru, para os quais contaremos com a colaboração de colegas aqui da universidade”.
Até aqui, ele e os alunos não contaram com nenhum financiamento de instituições acadêmicas, apenas com materiais fornecidos pela UTFPR e pela ETA da cidade de Toledo (PR), onde a universidade está localizada. De qualquer modo, “trata-se de uma pesquisa de baixo investimento”, diz.
Baixo investimento e alto interesse, podemos acrescentar. Qualquer redução na quantidade de poluentes lançada em nossa água de beber é mais que bem vinda. Todas as empresas de água deviam acompanhar esta pesquisa!
Fonte: [ Planeta Sustentável ]

Planta que absorve metais pesados pode ser usada para tratamento de igarapés

A planta aquática orelha-de-elefante-gigante, comum em matas ciliares, consegue absorver metais como chumbo e cobre
Planta orelha-de-elefante-gigante tem capacidade de absorver metais pesados
(Divulgação/Josias Coriolano de Freitas)
Um grupo de pesquisa da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) está desenvolvendo um sistema baseado na planta aquática orelha-de-elefante-gigante (Alocasia macrorhiza) para o tratamento das águas do igarapé contaminado de Manaus.
O engenheiro químico Josias Coriolano de Freitas, cuja tese de doutorado identificou a capacidade da planta em absorver metais pesados, diz que a orelha-de-elegante-gigante ajuda na recuperação de áreas degradadas e no tratamento de efluentes líquidos, entre outras ações.
“A planta pode ser utilizada naturalmente. Não é preciso usar nenhum produto químico. No momento o grupo está procurando aperfeiçoar o sistema de tratamento natural”, disse Freitas, em entrevista ao portal a critica.com.

Lixo eletrônico vira terra-rara

Pesquisa feita no IPT abre caminho para o descarte de ímãs de computadores velhos e reaproveitamento de terras-raras, elementos químicos cujo monopólio mundial está nas mãos da China

Uma pesquisa realizada no Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) sobre o reprocessamento de ímãs de neodímio-ferro-boro (NdFeB) abre caminho para o descarte sustentável dos ímãs contidos nos discos rígidos de computadores fora de uso e para o desenvolvimento de tecnologias da cadeia produtiva de terras-raras.

Terras-raras compõem um grupo de 17 elementos químicos - entre os quais cério, praseodímio, térbio e neodímio - com aplicações diversas, como na produção de supercondutores, catalisadores e componentes para carros híbridos.

Realizada com bolsa da FAPESP durante o projeto, a pesquisa de Elio Alberto Périgo empregou uma série de ímãs sinterizados disponíveis comercialmente no mercado.

Segundo ele, a categoria de ímãs é a mais adequada para aplicações que demandem propriedades mais restritivas, como o uso em produtos tecnológicos de alto desempenho, e de maior valor agregado em relação aos ímãs aglomerados, que combinam material particulado e resina e têm propriedades magnéticas menores.

Périgo buscou comprovar a possibilidade de reprocessar o neodímio-ferro-boro e alcançar propriedades superiores às das ferrites, usadas atualmente para a produção dos tipos mais simples de ímãs.

"É o material de menor custo disponível no mercado, mas suas propriedades são relativamente baixas. A aplicação ocorre quando as propriedades magnéticas não são restritivas, como pequenos motores elétricos e alto-falantes", disse.

Para avançar na tentativa de reciclar compostos sinterizados de NdFeB para fabricar novos ímãs e manter as características originais, o pesquisador realizou o estudo por meio do processo HDDR. A técnica combina as etapas de hidrogenação, desproporção (transformação da fase magneticamente dura em outras fases), dessorção (retirada de hidrogênio da estrutura cristalina do composto previamente hidrogenado) e recombinação (obtenção da fase magneticamente dura com tamanho de grão inferior ao inicial) em ligas à base de neodímio-ferro-boro.

A pesquisa indicou a possibilidade do emprego do material reprocessado em aplicações nas quais é preciso elevada resistência à desmagnetização. E resultou no depósito de uma patente, tendo como titulares Périgo, o IPT, a FAPESP e o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), no qual o pesquisador realizou seu doutorado, também com Bolsa da FAPESP.

De acordo com o IPT, embora o material empregado nos ensaios fosse proveniente de ímãs comerciais, o estudo mostrou a viabilidade de extrapolar os dados obtidos para o reaproveitamento dos ímãs contidos em discos rígidos.

Segundo Périgo, os compostos de neodímio-ferro-boro encontrados nos dois produtos têm vários pontos em comum, como não poderem ser expostos ao ar para evitar a oxidação e a perda de propriedades ou pequenas variações de composição, que implicariam poucas alterações nas condições de temperatura e pressão para o processamento.

Para o pesquisador, o aproveitamento dos materiais magnéticos é uma alternativa para fomentar o mercado nacional de reciclagem do lixo eletrônico. Em cada disco rígido, são encontrados cerca de 30 gramas de material magnético, o que configura uma grande oportunidade para a destinação sustentável de computadores antigos.

"Quando o consumidor troca o computador, ele descarta o equipamento porque busca uma maior capacidade de processamento, por exemplo, e não porque o ímã parou de funcionar", explicou. "O material magnético continua operante e nas mesmas condições da época em que o computador foi comprado."

A fabricação de ímãs permanentes de alto desempenho é possível somente com o emprego das terras-raras, o grupo no qual está presente o neodímio. O mercado é atualmente dominado pela China, mas as recentes reduções nas quantidades de materiais que o país pode exportar aumentaram as dúvidas pela continuidade do abastecimento e impulsionaram projetos de desenvolvimento de empreendimentos de mineração em todo o mundo, principalmente no Canadá e na Austrália.

"Recentemente, o preço desses elementos subiu de forma abrupta, e no Brasil quem utiliza ímãs em compressores, motores e a indústria eletroeletrônica precisam importar esses materiais, já que não existem substitutos nacionais", disse Périgo.

fonte Agencia Fapesp